Experiência Religiosa

Edith Stein e o Sagrado Coração de Jesus

Edith Stein e o Sagrado Coração de Jesus

Nesta solenidade católica do Sagrado Coração de Jesus trago para você, estudioso(a), admirador(a) e/ou devoto(a) de Santa Edith Stein alguns de seus textos em que ela se refere e se envolve com o que o Sagrado Coração de Jesus se refere – algo que o Concílio Ecumênico Vaticano II expressou de forma muito objetiva e profunda – o amor de Deus: “em virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Cl. 1,15; 1 Tm. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cf. Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (cf. Br. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele” 1.

Mais do que tecer comentários sobre o Edith Stein pensava sobre o Sagrado Coração de Jesus, este pequeno texto se propõe a apresentar seis trechos – de seus escritos autobiográficos e no conjunto de reflexões antropológicas na obra “A Mulher” – e deixar com que os mesmos manifestem, mesmo em partes, o que tal devoção católica expressa do Amor de Deus, algo que desde a época em que viveu Edith Stein era algo não vivenciado por todas as pessoas.

Que os textos a seguir sejam oportunidade para viver bem esta solenidade do Sagrado Coração de Jesus, bem como nos aproximar deste Coração e ser transformado e fortificado por Ele, como fez São João, evangelista, ao reclinar sua cabeça (sua razão) no Coração de Cristo na última ceia (Cf. Jo 13,23), experiência que o fortaleceu para ir com Cisto até a Cruz (cf. Jo 19,17-27) – como também fez Edith Stein em seu martírio – e fazer com que ele desse testemunho que o “evento cristo” é uma verdade que ele atesta (Cf. Jo, 20) e que ele anuncia por ter visto, tocado e convivido com Cristo (Cf. 1Jo,1-3).

Por primeiro, é importante perceber como que “vida divina” e o coração de Jesus se relacionam no pensamento de Edith Stein e conhecendo sua vida se perceber ser algo que a formou internamente no seu caráter e marcou seu modo de ser:

A vida divina é amor, amor transbordante que nada exige para si, que se doa livremente, amor que se inclina misericordioso para todo ser carente, amor que cuida e conserva. alimenta, ensina e forma, amor que se entristece com os tristes e que se mostra alegre com os alegres, que se põe a serviço de todo ser para que este se torne aquilo que o Pai lhe destinou, numa palavra: o amor do coração divino2.

Participando desta vida divina, seja nos estudos, na vivência com as pessoas e liturgia, envolve-se com os ensinamentos do coração de Cristo e se busca trilhar o mesmo caminho que Ele fez, ou seja, perpassado pela Cruz, como Edith Stein ensinou no conselho a seguir e certamente viveu dando sua vida:

(…) quem acolhe o Salvador, no mais íntimo da alma na santa comunhão, necessariamente será puxado com mais e mais força para dentro da torrente da vida divina fazendo parte mais íntima do corpo místico de Cristo, de modo que seu coração se transforma segundo a imagem do Coração Divino. E tem mais um efeito que decorre d este primeiro. Confiando todas as necessidades da vida terrena ao Coração Divino livramos delas nosso coração, de modo que nossa alma se torna livre para participar da vida divina: ao lado do Salvador trilhamos o caminho que Ele próprio trilhou durante sua vida na Terra e que continua trilhando na continuação de sua vida mística (…)3.

Imersa na realidade da perseguição nazista e com o desejo de se unir à Paixão do Senhor, Edith Stein manifesta, em 26 de Março de 1939, seu desejo de separar (consagrar) seu coração a Ele:

Querida Madre, peço que V. R. permita oferecer-me ao Coração de Jesus como sacrifício de expiação para a verdadeira paz: se possível, que a dominação do Anticristo se desfaça antes de uma nova guerra mundial e que uma nova ordem possa ser construída. Eu quero fazer isso hoje, porque é a décima segunda hora. Eu sei que eu sou um nada, mas Jesus o quer, e ele, nestes dias, certamente irá chamar muitos outros a fazer o mesmo. Domingo da Paixão, 26/03/19394.

Pouco tempo depois, cerca de dois meses e meio, ela reescreve, atenta mais uma vez à perseguição nazista, que ela tem certeza que em algum momento a atingirá, ela se envolve com o Sagrado Coração de Jesus e com o Imaculado Coração de Jesus para sempre:

Aceito, desde agora, a morte que Deus me reservou, em perfeita submissão à sua santa vontade e com alegria. Peço ao Senhor que Ele possa receber minha vida e morte para a sua honra e glória, por todas as intenções dos Sagrados Corações de Jesus e Maria e da Santa Igreja, em particular para a conservação, santificação e realização da nossa sagrada Ordem, especialmente os Carmelos de Colônia e de Echt, em expiação pela incredulidade do povo judeu e a fim de que o Senhor seja recebido pelos seus, para que o seu Reino venha, pela salvação da Alemanha e pela paz do mundo e, finalmente, pelos meus familiares, tanto os vivos como os falecidos, e todos que Deus me deu, para que nenhum deles se perca5.

No mesmo ano, Edith Stein, a Irmã Teresa Benedita da Cruz, escreve em 04 de agosto de 1939 a sua oração ao Sagrado Coração de Jesus:

Sagrado Coração de meu Salvador! Comprometo-me a fazer uso de todas as ocasiões para vos agradar; e quando for levada a tomar alguma decisão, escolherei o que vos proporcionar alegria, ou seja, comprometo-me a mostrar-vos o meu amor e a aperfeiçoar minha vocação, que é tornar-me uma verdadeira carmelita, uma verdadeira esposa vossa. Rogo-vos que me deis força para cumprir fielmente meu voto. Vossa mãe e meu Anjo da Guarda me auxiliem neste propósito6.

São orações que expressam o que está no coração de Edith Stein e que manifestam parte do processo que ela viveu até dizer à sua irmã Rosa Stein, no momento de sua prisão, a frase que demonstra sua união perfeita a Cristo pela Cruz: “vem, vamos pelo nosso povo”, como Cristo também fez por nós, seu povo, e que esta Solenidade do Sagrado Coração de Jesus nos recorda e nos leva a viver a partir de uma experiência em primeira pessoa, como fez a Virgem Maria, segundo Edith Stein:

em todo lugar deve ser serva do Senhor, como foi a mãe de Deus em todas as situações da vida: como virgem do templo nos domínios do recinto sagrado, nas tarefas humildes de Belém e Nazaré, como guia dos apóstolos e da primeira comunidade cristã após a morte do filho. Toda mulher seja uma imagem da mãe de Deus, uma sponsa Christi, uma apóstola do coração divino7.

Fontes de pesquisa:

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum: sobre a Revelação Divina. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html#.
STEIN, Edith. A mulher: sua missão segundo a natureza e a Graça. Bauru: EDUSC.1999.
STEIN, Edith. Vida de uma família judia e outros escritos autobiográficos. São Paulo: Paulus. 2018.

Notas

  1. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum: sobre a Revelação Divina. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html
  2. STEIN, Edith. A mulher: sua missão segundo a natureza e a Graça. Bauru: EDUSC.1999. P. 66.
  3. Idem. P. 70.
  4. STEIN, Edith. Vida de uma família judia e outros escritos autobiográficos. São Paulo: Paulus. 2018. P. 575.
  5. Idem. P. 578-579.
  6. Idem. 2018. P. 581.
  7. STEIN, Edith. A mulher: sua missão segundo a natureza e a Graça. Bauru: EDUSC.1999. P. 67.