sobre Edith Stein

Contribuições de Edith Stein – Teresa Benedita da Cruz – para a formação do humano em busca da Ciência da Cruz

Contribuições de Edith Stein

Edith Stein/Teresa Benedita da Cruz nasceu em território prussiano, na cidade de Breslau, hoje Wroclaw, no dia 12 de outubro de 1891, data em que é comemorada pela tradição judaica a festa Yom Kippur — dia do grande perdão. Recebeu de sua mãe Auguste Courant (1849-1936) sustentáculos para o exercício da Fé dos judeus. Desde criança, devido a sua brilhante inteligência, destaca-se nas escolas e nos grupos de pertencimento. Observadora do humano e buscadora da verdade, vive algumas crises existenciais que afetam o itinerário de suas atualizações pessoais e acadêmicas.

Na adolescência Edith Stein passa pelo ateísmo e por uma nova crise estudantil. Em 28 de abril de 1911 ingressa na Universidade de Breslau e encanta-se pela Psicologia, mas logo reconhece que essa incipiente ciência estava em “fraldas”. Buscando novas verdades, em 1913, com 21 anos de idade, consegue se inserir na Universidade de Göttingen para estudar Filosofia, mais precisamente apreender o método fenomenológico de Edmund Husserl (1859-1938), que já se destacava como Ciência do Rigor. Inserida nas produções do Grupo do Círculo de Gotinga, observa como o fenômeno da fé era discutido e até mesmo praticado por alguns dos integrantes judeus que se converteram ao Cristianismo. Dentre eles destacamos o judeu Husserl, que se converte ao Protestantismo/Luteranismo, e Max Scheler (1874-1928), que, ao se converter ao Catolicismo, passa também a contribuir com uma série de reflexões sobre o assunto.

Afinada com o método fenomenológico husserliano, solicita ao seu mestre um tema para o desenvolvimento de sua tese doutoral e Husserl lhe sugere dar prosseguimento à temática da Empatia (Einfühlung). No entanto, aberta às consequências provocadas pela vigência da Primeira Guerra Mundial, Edith Stein alista-se na Cruz Vermelha e só mais tarde retoma seus estudos. Na língua materna sua tese sobre o Problema da Empatia (Zum Problem der Einfühlung) foi publicada em 1917, mas não na íntegra, talvez pelas consequências econômicas provocadas pela guerra. Apesar de ser o seu primeiro escrito fenomenológico, já encontramos em sua tese uma atenção voltada para a compreensão integral da estrutura da natureza humana.

Buscadora da verdade, no ano de 1921, Edith Stein, ao encontrar na biblioteca de sua amiga protestante Hedwig Corad Martius (1888-1966) o Livro Vida de Teresa de Jesus — leitura que faz ininterruptamente — afirma ter encontrado ali a verdade procurada. Entre 1926 e 1928 realiza uma série de conferências voltadas para o público católico. Em 1932 recebe o convite para lecionar Pedagogia e Antropologia em um Instituto Religioso localizado na cidade de Münster, e neste mesmo ano é convidada para participar de um Congresso Internacional Tomista, realizado em Paris.

Com um caminho acadêmico já promissor, em 14 de outubro de 1933, aos 42 anos de idade, opta por entrar para o Carmelo Descalço abandonando sua vontade nas mãos amorosas de um Deus Trino. De tudo despojada, sua entrada para a vida monástica é por ela mesma reconhecida como um fecundo desabrochar para as “coisas santificantes”. Seu nome de religiosa Teresa Benedita da Cruz nos revela muito do seu itinerário espiritual, identificação advinda de sua admiração pela espiritualidade Beneditina, pelos ensinamentos espirituais de seus mestres do Carmelo Descalço Teresa d’Ávila [Jesus] (1515-1582) e João da Cruz (1542-1591).

Segundo Sancho-Fermín (2005), sua mestra superiora Madre Teresa Renata do Espírito Santo descreve que Edith Stein/Teresa Benedita da Cruz cumpre com dedicação os afazeres da vida monástica. Apesar de possuir uma bagagem cultural expressiva, vive com humildade o seu postulantado e o noviciado com irmãs, que eram, na maioria, 20 anos mais jovens. Discreta no convívio comunitário, muitas irmãs não chegam a saber que ali no Carmelo de colônia encontrava-se uma renomada filósofa que de tudo despojada inclina o seu ser pessoa aos mistérios da Ciência da Cruz.

Em 15 de abril de 1934, Edith Stein/Teresa Benedita da Cruz recebe o hábito. Em 1935 o Provincial del Carmelo Descalzo P. Theodor Rauch solicita-lhe que retome os seus estudos filosóficos, a partir do seu manuscrito Potência e Ato (Potenz und Ak). Dessa forma, a monja coloca novamente a sua inteligência a serviço da Igreja, porém, agora sua consciência é também iluminada pela intensidade do silêncio orante. À luz da fenomenologia, sua concepção de humano prossegue transitando em escritos espirituais, escolásticos e místicos, compondo, assim, uma síntese analítica na qual os toques do Arquétipo Divino na alma da alma são por ela aprofundados.

Importante destacar que sua contribuição filosófica abrange estudos Pedagógicos, Antropológicos, Políticos, Espirituais e Místicos. Escavando a essência humana, a autora reconhece que o Núcleo da Pessoa (Kern der Person) é uma parte imutável, na qual o humano, (microcosmo) aberto para dentro e para fora (macrocosmo), atualiza-se sem perder a sua essência. Suas dimensões triades (Corpo, Psique/alma, Espírito) em curso formativo podem chegar ao máximo desenvolvimento de suas potências, à experiência de unicidade, ou seja, a um fiel cumprimento do Princípio de Individuação (Principium individuationis) que torna o devir do humano finito — aberto às profundidades de sua alma — partícipe das partículas emanadas por um Deus eterno/essência pura, que, por gratuidade, nela habita.

Portanto, é nos seus escritos mais maduros Ser finito e ser eterno e Ciência da Cruz que a autora nos apresenta um humano religado à gratuidade do Arquétipo Divino, nos indicando que na alma da alma existe um ponto central de máxima interioridade. Analisando e encontrando formas para experienciar a linguagem expressiva do vivido dos seus mestres Teresa de Jesus e João da Cruz em sua vida monástica, Edith Stein/ Teresa Benedita da Cruz constata em maior profundidade que a entrega da cega vontade humana nas mãos providenciais do Deus amor é o cume da fonte da experiência mística. “Em 1939, escreve Exaltação da cruz. Ave, ó cruz, única esperança! (Exaltación de la cruz. ¡Ave cruz, esperanza única!) reforçando a ligação dos votos religiosos ao seguimento de Cristo e ao Mysterium da Cruz”. (FERREIRA, 2020, p.221).

Sua análise e síntese investigativas desvelam e unificam a difícil equação existente entre a Ciência (confiança no logos) e a Fé (confiança no Transcendente), ou seja, unifica “[…] as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.” (JOÃO PAULO II, 1988, p. 1). Destaca o Papa João Paulo II (1920-2005), também em sua Encíclica Fides et ratio (1988), que Edith Stein/Teresa Benedita da Cruz nos apresenta “[…] exemplos significativos dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis vantagens da sua confrontação com os dados da fé”. (JOÃO PAULO II, 1988, p. 45). Como nada detém a sua experiência com a Ciência da Cruz, ao ser retirada pelos nazistas de seus ideais monásticos, ela vive no Campo de Concentração de Auschwitz não só o binômio Judaísmo-Cristianismo, mas uma livre entrega que unifica sua finitude ao almejado finito aberto.

Dessa forma, o conteúdo de sua obra filosófica apresenta contribuições que ultrapassam o campo científico, pois a autora, ao escavar em profundidade a essência humana, demonstra as armadilhas e os deleites formativos da via elementar e espiritual, fato que nos leva a compreender os reconhecimentos que Edith Stein/ Teresa Benedita da Cruz vem alcançando nos últimos tempos, a saber: em primeiro de outubro de 1999 o Papa João Paulo II a nomeia como uma das patronas da Europa. Neste mesmo ano, a Associação Italiana de Psicólogos e Psiquiatras Católicos também a declara como sua patrona. Aliado a isto, seus escritos vêm ganhando traduções em diversas línguas e a sua configuração singular em Cristo renasce como exemplo não só nos ambientes católicos, mas na práxis que sustenta a disseminação e o encantamento dos valores do Cristianismo.

Por fim, como descrito por Edith Stein/ Teresa Benedita da Cruz “[…] a alma se consome em reações que bem podem levar a marca de sua individualidade, mas não descansa em sua individualidade”. (STEIN, 2007, v. 3, p. 85, tradução nossa). Ela pode abrir-se à graça “[…] despreocupado de si mesmo — de sua liberdade e de sua individualidade — se fundirá nela”. (STEIN, 2007, v. 3, p. 87, tradução nossa).

Referências

FERREIRA, Soraya Cristina Dias. O humano a caminho de um centro mais profundo: leituras da alma apresentada por Edith Stein e da totalidade psíquica por Jung. 2020. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, 2020.

JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Fides et Ratio. Kölm-Müngersdorf, 14 de set. 1998. Disponível em: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html. Acesso em: 04 de abril. 2021.

SANCHO-FERMÍN, Francisco Javier. Edith Stein: modelo y maestra de espiritualidad. 4. ed. Burgos: Editorial Monte Carmelo, 2005.

STEIN, Edith. Escritos autobiográficos y cartas, v. 1, [Tradução F. J. Sancho-Fermín et al.] Vitoria: El Carmen; Madrid: Editorial de Espiritualidad; Burgos: Editorial Monte Carmelo, 2002 (Obras Completas). OC

STEIN, Edith. Escritos filosóficos: etapa de pensamiento cristiano, v. 3, [Tradução F. J. Sancho-Fermín et al.] Vitoria: El Carmen; Madrid: Editorial de Espiritualidad; Burgos: Editorial Monte Carmelo, 2007 (Obras Completas). OC

STEIN, Edith. Escritos espirituales, v. 5, [Tradução F. J. Sancho-Fermín et al.] Vitoria: El Carmen; Madrid: Editorial de Espiritualidad; Burgos: Editorial Monte Carmelo, 2004 (Obras Completas). OC


Artigo publicado na Revista Paraclitus da Mitra Diocesana de Divinópolis. Ano II – nº 2/Nov. 2021, p. 10-11. Tiragem: 3000 exemplares.