sobre Edith Stein

Quem foi Edith Stein para o Papa João Paulo II

(Artigo originalmente publicado no site de Formação da Canção Nova)

Em 1º de maio de 1987, no Estádio de Colônia, Alemanha, o Papa João Paulo II beatifica Edith Stein (1891-1942), a Ir. Teresa Benedita da Cruz. Onze anos depois, em 11 de outubro de 1998, ele a proclama santa. Um mês antes de sua santificação, em 14 de setembro de 1998 – Festa de Exaltação da Santa Cruz –, o mesmo Pontífice, no vigésimo ano de seu pontificado, publica a Carta Encíclica Fides et Ratio, sobre as relações entre fé e razão. Nessa encíclica, Edith Stein é citada entre os pensadores mais recentes, em cuja investigação “a relação entre filosofia e a Palavra de Deus manifesta-se fecunda” (Fides et Ratio, n. 74).

Conhecer um pouco mais Edith Stein nos permitirá lançar luzes e aprofundar alguns dos aspectos de sua vida, destacados por São João Paulo II, que com ela compartilha, além de um grande zelo pela Igreja e pela busca da verdade, o amor à filosofia e uma ampla formação na escola fenomenológica. Vejamos algumas das frases que o Papa escolheu em suas duas homilias para melhor caracterizar essa santa-filósofa.

Papa João Paulo II sobre Edith Stein

“Edith Stein, judia, filósofa, religiosa, mártir” (João Paulo II, 1987, n.1). Todos esses títulos foram incorporados à vida intensa e profunda de Edith Stein. Nenhum deles foi descartado, mas elevado e aprofundado em sua nova perspectiva. O martírio, ocorrido nas câmaras de gás de Auschwitz- Birkenau, por amor a Deus, ao seu povo, à Igreja e a toda a humanidade, revestiram, com um sentido ainda maior, tudo o que foi vivenciado por ela ao longo de sua vida.

Edith se identifica com a pequena Ester, pobre e fraca, mas escolhida pelo rei, e por Deus, para salvar o seu povo. Hoje, nosso mundo se encontra novamente em grande perigo, e precisamos de outras Edith e Ester, dispostas a se oferecer pela salvação da humanidade, abraçando generosamente a cruz de Cristo. “Toda a vida de Edith Stein é caracterizada por uma incansável busca da verdade e está iluminada pela bênção da cruz. (…) Quando entrou no Carmelo de Colônia, com o nome de Teresa Benedita da Cruz, para participar de maneira ainda mais profunda no mistério da cruz de Cristo, ela sabia que tinha ‘esposado o Senhor no sinal da cruz’” (João Paulo II, 1987, n. 5).

Sentindo-se ainda mais judia após o batismo na Igreja católica, apesar do grande sofrimento que causou à sua mãe, uma judia piedosa e convicta, Edith Stein aguardou por mais de 10 anos para receber, de Cristo Bom Pastor, a moção que a fez entender que já era hora de ingressar na ordem do Carmelo. “Quando, enfim, em 1933, Edith Stein entrou no Carmelo de Colônia, esse passo não significou para ela uma fuga do mundo ou das próprias responsabilidades, mas uma participação ainda mais decidida no seguimento da cruz de Cristo” (João Paulo II, 1987, n. 7).

Beatificação da santa

Na homilia de beatificação, João Paulo II termina com a afirmação de que Edith Stein é uma “personalidade que reúne na sua rica vida uma síntese dramática do nosso século, (…) síntese, ao mesmo tempo, da verdade plena sobre o homem, num coração que esteve inquieto e insatisfeito ‘enquanto não encontrou a paz em Deus’” (João Paulo II, 1987, n.9).

Dez anos depois, por ocasião da santificação de Edith Stein, o Papa João Paulo II relembra o horror do “Shoah”, que custou a morte de milhões de irmãos e irmãs judeus, entre eles, Santa Teresa Benedita da Cruz e sua irmã, Rosa Stein.

Conquistada pela Verdade

Edith foi conduza à morte, mas o seu amor a Cristo e a entrega livre e generosa de sua vida pela salvação de seu povo, registrada em seu último testamento, redigido no Carmelo de Echt, a fez protagonista, e não vítima, nas mãos dos nazistas. Coroou a sua vida de busca da verdade, assemelhando-se a Jesus na cruz. “Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar, e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado, e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada” (João Paulo II, 1998, n.5).

Edith descobriu que a verdade tinha um rosto e um nome: Jesus, o Salvador, aquele que o povo judeu ainda esperava por vir. Ela se sentiu agraciada e a sua longa busca pela verdade se manifestou em sua tradução no amor: “compreendeu que estas se interpelam reciprocamente” (João Paulo II, 1998, n.6). Teresa Benedita da Cruz testemunhou a sua vida na verdade e no amor, culminando no martírio de amor, entregando-se à cruz de Cristo. Entendendo que o amor a Cristo passa através da dor, aceitando a comunhão na dor com a pessoa amada, com a sua morte Edith Stein tornou o sofrimento fecundo e abriu um caminho a ser seguido por toda mulher e homem de boa vontade: o da busca da verdade que, conscientemente ou não, conduz a Deus.

Por fim, trazendo para a nossa realidade de hoje, em plena pandemia e sofrendo pelas polarizações de um mundo dividido, desejamos que Edith Stein “seja para nós um exemplo do nosso compromisso no exercício da liberdade e na busca da verdade” (João Paulo II, 1998, n.6), tendo em vista uma compreensão recíproca e um maior amor entre povos, religiões e mentalidades diversas, unidas pela cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que Santa Teresa Benedita da Cruz interceda por cada um de nós.


Publicação original em: https://formacao.cancaonova.com/igreja/santos/quem-foi-edith-stein-para-o-papa-joao-paulo-ii/

Autor

  • Maria Cecília Isatto Parise

    Mestre em História da Filosofia pela Universidade de Paris I – Panthéon/Sorbonne – A bela alma na Fenomenologia do Espírito de Hegel; Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo – As colorações da alma na análise da pessoa humana segundo Edith Stein; Professora de Filosofia do Seminário Maria Mater Ecclesiae, SP. Áreas de pesquisa: fenomenologia de Hegel, fenomenologia de Edmund Husserl e Edith Stein, antropologia filosófica, personalismo, fenomenologia da religião, fé e razão.

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