Uma mãe ferida,uma filha consagrada: a carta de Edith Stein a Gertrud von le Fort
Esta carta, escrita nos primeiros dias de Edith Stein no Carmelo, revela uma mulher em transição, mas também em paz. Edith carrega consigo a dor de sua mãe, a complexidade de sua conversão, as tensões de sua época; mas tudo isso é abraçado e transformado no amor de Cristo que ela encontrou e no qual agora vive completamente.
Segue abaixo reprodução da carta e análise do conteúdo, em seu contexto.
Colônia-Lindenthal, 17 de outubro de 1933
Rua Dürener, 89
J. M. J. T (Jesus, Maria, José, Teresa)
Pax Christi!
Minha querida Gertrud von le Fort,
Em minha cela tranquila acabo de ler o seu precioso louvor mariano. Aqui, no Carmelo, ele se harmoniza de modo muito especial. Muito obrigada por isso. Ainda mais lhe agradeço pela sua afetuosa disponibilidade em consolar minha querida mãe. Se a senhora pudesse visitá-la pessoalmente, não duvido de que rapidamente encontraria afinidade com ela. Estabelecer contato apenas por carta será uma tarefa trabalhosa. Caso queira tentar, ficarei, naturalmente, muito agradecida e, para isso, desejo lhe dar algumas indicações.
Nunca falei à minha mãe sobre a senhora. Não consegui despertar nela interesse por nenhuma de suas poesias, pois ela rejeita tudo o que não tenha relação com sua fé judaica. Por essa razão, também não foi possível dizer-lhe algo que pudesse ajudá-la a compreender minimamente minha decisão. De modo muito especial, ela rejeita as conversões: cada pessoa deve viver e morrer na fé em que nasceu. Sobre o catolicismo e a vida religiosa, ela tem concepções assustadoras. Neste momento, é difícil dizer o que lhe causa maior sofrimento: se a separação de sua filha mais nova, à qual sempre esteve ligada com amor especial; se o medo diante de um mundo completamente estranho e inacessível, no qual sua filha desapareceu para ela; ou se o peso na consciência de sentir-se culpada por não ter me educado de modo suficientemente rigoroso no judaísmo.
Como possíveis pontos de contato para a senhora, vejo apenas o amor forte e autêntico de Deus que minha mãe possui, e o amor por mim, que nada conseguiu abalar. Deixo inteiramente ao seu bom critério assumir ou não essa difícil tarefa.
Cheguei a Colônia na noite do dia 13; nessa noite fiquei na casa de uma amiga. No dia 14, assisti com ela, na igreja, às primeiras vésperas da festa de nossa santa Madre e, em seguida, tomei com ela, fora da clausura, um chá de despedida. Pouco depois das quatro horas atravessei o limiar do santuário. Já pude cantar no coro as matinas da festa.
No amor de Cristo,
sua, agradecida,
Edith Stein






