A filósofa sem cátedra: Edith Stein e o espaço doméstico como lugar de formação
A Carta 94 foi escrita em Breslau, em 30 de abril de 1920, apenas dezoito meses após o fim da Primeira Guerra Mundial. Edith Stein mantinha correspondência com Roman Ingarden, ambos discípulos de Edmund Husserl, fundador da Fenomenologia.
Após múltiplas tentativas frustradas de obter uma posição universitária, Edith declara abertamente nesta carta sua desistência deste objetivo. Em vez de continuar batendo em portas institucionais fechadas, ela decide redirecionar sua energia intelectual para atividades mais produtivas: ensino independente, pesquisa filosófica e publicações.
Segue o texto e uma análise:
Breslau, 30 de abril de 1920
Calle Michaelis, 38
Caro senhor, Ingarden,
Muito obrigada por sua carta. Eu não contava com isso naquele momento: que a minha tivesse chegado e que eu pudesse esperar uma resposta. Lamento que seja impossível viajar para a Alemanha, mas compreendo.
Entretanto, Pfänder me informou que as colaborações para o livro de homenagem terão de ser distribuídas em dois volumes, e que ele se responsabilizará por sua edição a pedido de Husserl. O primeiro conterá as colaborações de Pfänder, Geiger e Hering (o trabalho sobre a essência); o segundo, a minha, a sua e a da senhora Conrad. Pedi a Pfänder que incluísse também a continuação do meu trabalho, isto é, tudo aquilo que eu havia preparado como escrito para o concurso à cátedra e que não pretendo voltar a utilizar para esse fim. A esse respeito, ainda não recebi nenhuma resposta. Suponho que Clauss não lhe tenha escrito, já que está muito ocupado com assuntos pessoais bastante desagradáveis. Não quero dar-lhe mais detalhes; e o senhor não deve fazer nenhum uso disso, no sentido de que eu lhe tenha comentado algo. De resto, há cerca de quatro meses não tenho notícias de Friburgo. É claro que nosso senhor e Mestre me considera, como antes à senhora Conrad, um caso sem remédio.
Onde se encontra o exemplar de seu trabalho sobre Bergson, que certa vez enviei a Bell, eu também não sei; mas talvez (com um grande ponto de interrogação) eu consiga averiguar isso. Faz tempo que não tenho notícias dele e não sei se ainda está na Inglaterra ou se, afinal, está no Canadá. No ano passado, ele havia deixado suas coisas espalhadas por Berlim, Gotinga e Londres. Se seu trabalho estiver em Gotinga, eu poderia obtê-lo por meio de Runge. E é isso que vou tentar fazer. Diga-me: como vai o seu trabalho para o Anuário no que se refere ao estilo alemão? Às vezes isso me tem causado dores de cabeça.
O que o senhor contou sobre sua atividade acadêmica interessou-me muito. Em tom de brincadeira, também eu comecei a ministrar aulas de introdução à filosofia a partir do ponto de vista fenomenológico. Mas não na Universidade, e sim, com a própria venia legendi, em minha casa. Apesar de não ter feito nenhuma divulgação, tenho mais de trinta alunos, e espero que, com o passar do tempo, eu forme um grupo consistente com o qual se possa trabalhar com gosto. Estou cansada das tentativas de concurso a cátedra. É tempo e esforço demais que exigem; tempo e esforço que poderiam ser empregados melhor. Não seria para o senhor muito prático conservar os Kant-Studien para manter-se a par das novidades filosóficas?
Se me escrever novamente — o que espero que não tarde a acontecer, ainda que seja apenas dentro de meio ano —, diga-me, por favor, como o senhor está, para além da ciência. Pelo tom de sua carta, parece como se não existisse mais nada no mundo. E isso tem muito pouco a ver com o senhor.
Cordiais saudações,
sua,
Edith Stein






