Freud & Jung: do complexo de Édipo à alma ‘naturaliter religiosa’
Neste tempo pós-moderno, repleto de transições religiosas, estas duas teorias da psicologia profunda merecem ser revisitadas.
Para Jung, o ser humano, através das imagens arquetípicas advindas do inconsciente coletivo apresenta pontos de averiguação sobre a existência do Sagrado na dinâmica psíquica. Tais investigações o levaram a afirmar que a psique é naturaliter religiosa.
Já no pensamento de Freud, não se percebe a negação da função religiosa na psique, mas verifica-se que ele a coloca em outro patamar: o de uma projeção similar à neurose obsessiva compulsiva, podendo a humanidade, através da razão, despertar desta falsa consciência religiosa considerada, às vezes, até necessária à saúde psíquica, mas que retarda a evolução da espécie humana.
Mediante esses pressupostos, a análise dos paradoxos apresentados proporciona como ponto de partida para uma frutífera reflexão duas formas de pensar a psicologia da religião. Primeiramente, a experiência religiosa podendo ser compreendida como uma dependência infantil à figura do Pai, estritamente relacionada ao complexo de Édipo, como argumenta Freud. Posteriormente, como evidencia Jung, ela é um fenômeno perpassado por conteúdos a priori de caráter numinoso, pois, apesar das experiências culturais, sociais e religiosas impostas pela relação do ser no mundo externo, algo a mais ocorre, quando na busca de si mesmo o ser modifica sua consciência através desta função naturalmente religiosa implícita na dinâmica interna da psique.
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Prefácio do livro
Romain Rolland, autor de “La Vie de Vivekananda” e “La Vie de Ramakrishna” trocou correspondência com Freud sobre as questões da religião. (1) Como a psicanálise, sendo uma nova ferramenta de trabalho com o inconsciente, poderia auxiliar na compreensão dos fenômenos místicos? Freud respondeu que refletia demoradamente sobre a questão de Roland, o próprio Roland um autor dedicado aos fenômenos da espiritualidade. E Freud mencionou pela primeira vez uma de suas chamadas “protofantasias”, fantasias primárias, comuns a todas as pessoas, que ocorreriam em nível mais profundo do que as fantasias individuais: aquela que denominou “sentimento oceânico”. Esse é um sentimento das origens, quando o feto ainda mergulhado no líquido amniótico, vivencia o oceano do líquido maternal como o infinito, como o indelével sagrado que a mente adulta irá chamar de “Deus”. O adulto conservaria essas misteriosas impressões das origens e engendraria diversos ritos e cultos para dar conta delas.
Vemos nessa abordagem de Freud uma tendência geral que mantém em todo o seu pensamento, a explicação causal de fenômenos psicológicos por mais complexos que sejam, como a religião. Jung por outro lado, preferiu seguir o método analógico, da abordagem do geral para o particular, procurando padrões comuns repetidos nos mitos coletivos como referência para entender o indivíduo em particular, os rituais e as funções da religião. O seu modelo de arquétipo, elemento primordial para a compreensão do inconsciente coletivo é a chave para o entendimento da religião. O arquétipo central ou si-mesmo, centro da identidade, elemento organizador da totalidade psíquica seria o equivalente psicológico da ideia universal da existência de um Deus. Vemos nessa colocação não uma afirmação de causa e efeito, a de que o si-mesmo é a causa da ideia de Deus, ou de que a ideia de Deus é a causa do si-mesmo. Antes, o si-mesmo e Deus estão em uma relação analógica, não causal, de equivalência. Essa cosmovisão junguiana é bem característica de seu pensamento e é importante entendê-la, para captar suas repetidas afirmações de que não é um metafísico ou um teólogo, mas que é um homem empírico que trata de fenômenos psíquicos observáveis.
Em Freud, sua perspectiva mais causalista e redutiva, típica da ciência do século XIX, coloca o indivíduo como centro e origem dos fenômenos mais gerais. A mecânica psicológica das defesas, do recalque, negação e projeção opera sempre, desde as origens da cultura, na produção do fenômeno religioso. O totemismo está nas origens da religião como elemento social instaurador do superego e da lei internalizada. O complexo de Édipo e o tabu de incesto são o tijolo angular da edificação da cultura, e o princípio religioso tem uma função eminentemente ética e organizadora da ordem social. Mas essa organização é sempre vista como se dando a partir das defesas dos instintos derivados de um princípio desordenado ao qual foi chamado de isso, ou id. Já para Jung a religião é uma necessidade fundamental do homem, pois expressa uma carência essencial de completude.
O livro de Soraya Ferreira tem o mérito de abordar de forma bem completa a questão complexa da espiritualidade na obra dos dois grandes fundadores da psicologia de profundidade. O livro consegue dar conta de forma bem clara tanto das principais formulações de Freud sobre a espiritualidade quanto as numerosas e aprofundadas explorações de Jung sobre o tema. Em Jung, a questão da religião permeia toda sua vida e obra. Desde os grandes sonhos e intuições de infância, permeado toda sua vida iremos encontrar o elemento espiritual sempre presente. Também em suas viagens a partir dos anos 1930, irá procurar nos cultos e ritos religiosos de povos distantes a emergência autóctone das imagens arquetípicas. Há ainda em sua obra tardia toda uma volumosa publicação dedicada a religião ocidental e também oriental, bem como uma ampla gama de seminários sobre o tema da espiritualidade recentemente sendo publicados.
O livro de Soraya Ferreira é de grande atualidade pois trata de um fenômeno que se torna a cada dia mais importante nos dias atuais: a questão da religião, um dos fenômenos mais básicos e universais do ser humano. A não compreensão das religiões como um fenômeno espiritual, como formas de apreensão do sagrado em cada um pode levar as perigosas formas de fanatismo, tão presentes no mundo globalizado. Daí a vantagem da abordagem psicológica que a autora propõe, mantendo, naturalmente a riqueza da experiência espiritual direta do numinosum, do sagrado, e de seu grande poder transformador.
Os fundamentalismos derivam dessa perda da capacidade simbólica que a psicologia de profundidade nos apresenta. Os textos de revelação das religião são tomados ipsis litteris, em sua concretude literal. A palavra fundamentalismo derivou da escola de interpretação bíblica de Princeton, nos Estados Unidos, o fundamentalismo de Princeton. Por essa abordagem, Deus criou o mundo em seis dias, descansando no sétimo, e Eva foi criada da costela de Adão concretamente. Nenhuma leitura simbólica pode ser feita desses textos bíblicos, pois estariam incorrendo em profanação de um texto de revelação. Diversos cristãos aderentes de correntes fundamentalistas não acolhem qualquer abordagem simbólica possível dessas narrativas. Permanece, assim, na leitura do fundamentalismo radical, empobrecedora e produtora de fanatismos.
Também as escolas radicais do Islamismo mostram um fundamentalismo religioso perigoso. Quando alguns grupos Talibãs destruíram as gigantescas estátuas de Buda de Bamiyan, próximo a antiga rota da seda, no Paquistão, argumentaram que as estátuas violaram a antiga norma islâmica de que deus não pode ser representado sob a forma antropomórfica. Encontramos aqui também uma forma radical de fundamentalismo. Sob esse raciocínio obscuro e radical não apenas obras religiosas do Budismo, mas tesouros arqueológicos e culturais de grande importância foram destruídos.
A psicologia de profundidade de Freud e de Jung parece trazer uma saída importante para a prisão dos fundamentalismos e fanatismos que dominam a cultura atual, trazendo a chave do símbolo. Como lembrou Jung certa vez, citando um ditado alquímico antigo: “para os que têm o símbolo, a passagem é fácil”.
Walter Boechat
Doutor em Saúde coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS) da UERJ.
Diplomado pelo Instituto C. G. Jung de Zurique,
membro-fundador da Associação Junguiana do Brasil (AJB),
autor e organizador de obras junguianas.








