sobre Edith Stein

A alma feminina segundo Edith Stein

O emprego da literatura pela filósofa e fenomenóloga Edith Stein será apresentado para explicitar a conceito de species ou alma feminina, especialmente em um ciclo de conferências ministrado em 18, 20, 25 e 27 de janeiro de 1932 na “Associação Feminina Católica” de Zurique. A compreensão da vida, do percurso formativo dessa autora e do seu contexto histórico e político são essenciais para se captar a originalidade de sua análise. Edith Stein desenvolve uma filosofia “em primeira pessoa” e o conceito de alma feminina adquire para ela uma importância ímpar na fase madura de sua produção filosófica, sendo abordado em várias de suas conferências e em seu curso de antropologia filosófica no Instituto de Pedagogia Científica de Münster.


Edith Stein, no ciclo de conferências ministrado em 18, 20, 25 e 27 de janeiro de 1932 na “Associação Feminina Católica” de Zurique, refere-se à “alma feminina”. A sua análise da alma feminina, sua riqueza e originalidade, não pode ser desvinculada da compreensão de sua vida e de seu percurso formativo. O interesse pelo estudo da natureza humana fez com que Edith Stein transitasse pelos estudos de psicologia, história, germanística (letras e literatura alemã), filosofia, fenomenologia, filosofias e místicas cristãs. Nenhum desses conhecimentos foi descartado, mas todos foram conservados, aprofundados e iluminados no processo de desenvolvimento de seu pensamento tornado vida. Daí a riqueza e originalidade de suas análises sobre a pessoa humana, que passa a ser conhecida fora do ambiente de sala de aula a partir de 1926, quando Edith Stein começa a ser requisitada como conferencista em várias cidades de países de língua alemã. O tema principal de suas conferências é a formação e a especificidade da mulher, contrapondo-a com a do homem, tendo como pano de fundo uma antropologia dual, capaz de fundamentar a estrutura geral comum a todo ser humano e, dessa forma, reivindicar uma equiparação de oportunidades e direitos entre homens e mulheres (ALES BELLO, 2017, p. 44 et. seq.).

A antropologia de Edith Stein, que além de conhecer várias línguas modernas, também dominava o latim e o grego, se constrói no diálogo entre a fenomenologia de Edmund Husserl e a metafísica cristã. Ela toma para si a tarefa de clarificação e fundamentação rigorosa da natureza humana, mas, ao mesmo tempo, procura difundi-la, de modo claro e didático, especialmente em suas conferências. Sua atividade intelectual como fenomenóloga, pesquisadora e tradutora, sua atuação como feminista sufragista e ativista política na República de Weimar na Alemanha, assim como professora, estão intimamente relacionadas com sua crença em Deus e na consciência de sua responsabilidade perante o seu povo e a história. O tema central de sua obra, a natureza humana, é fruto de suas vivências pessoais, pois a conduz a refletir sobre a formação da mulher, a importância de sua atuação na sociedade em um tempo em que elas tinham poucos direitos social, políticos e educacionais.

Edith Stein sabe que a formação é o caminho mais seguro para que as mulheres sejam reconhecidas como seres humanos em sua completude e possam dispor das mesmas condições de desenvolvimento pessoal e profissional que as oferecidas aos homens. Além disso, ela julga essencial para o desenvolvimento harmonioso da comunidade humana que homens e mulheres sejam valorizados em suas especificidades e por suas capacidades de prestar auxílio recíproco, complementando-se mutuamente, sempre levando em consideração a “nota pessoal” de cada indivíduo humano único e irrepetível.

A formação de Edith Stein: letras , história, psicologia e filosofia

Edith Stein (1891–1942) vive em uma época conturbada da história do mundo ocidental. A virada do século XIX para o século XX está carregada de esperança e promessas de construção de uma nova civilização: mais rica, mais igualitária, mais justa. O mundo havia sido ampliado pelas grandes navegações dos séculos passados e a descoberta de novos povos e novas culturas proporcionara uma maior compreensão do que é próprio do ser humano. As utopias produzidas pela burguesia que havia tomado o futuro em suas próprias mãos por meio das lutas revolucionárias, destronando os nobres e o clero em busca de uma maior igualdade social, pareciam cada vez mais próximas de uma concretização real em um futuro não tão distante. O surgimento do protestantismo havia originado uma nova forma de religiosidade
fundada na racionalidade iluminista, favorecendo o surgimento dos ideais capitalistas. Deus, o Deus vivo da tradição judaico-cristã, havia sido esquecido, ou melhor, morto. Nietzsche o anunciara em tom profético no final do século XIX. A ciência moderna e a técnica, unidas ao capital financeiro acumulado pela burguesia, prometiam ser bem mais justas e igualitárias do que Deus na distribuição de bens e de favores. Cabia agora à humanidade tomar a vida e o mundo em suas próprias mãos e recriar-se a seu bel-prazer.

É nesse ambiente otimista que Edith Stein passa a sua infância e início de juventude. Última filha do casal Siegfried Stein e Auguste Courant, nasce no final do século XIX em uma família judia que tinha incorporado um modo de vida aberto e liberal. Filha de comerciantes e habituada desde muito cedo a trabalhar, tanto no ambiente doméstico quanto na loja de seus pais. Quando seu esposo morre prematuramente, vítima de uma insolação sofrida em uma de suas viagens de negócios, Auguste decide que “enfrentaria a situação sozinha e não aceitaria a ajuda de ninguém. Manteria a loja e faria crescer os negócios” (STEIN, 2018, p. 43). Apesar do acontecimento trágico da morte do pai quando Edith Stein tinha apenas cinco anos de idade, a Senhora Auguste consegue reverter esse quadro triste em uma história de superação pessoal, que tanto influencia a vida da filha caçula. Ela o faz com maestria, ampliando o próprio negócio sem descuidar da educação dos sete filhos: Paul, Else, Arno, Frieda, Rosa, Erna e Edith.

A mãe sempre foi um exemplo de mulher para Edith Stein, sua inspiração para enfrentar com determinação grandes desafios, tal como estudar em uma universidade em um período em que poucas mulheres faziam isso. Em 1911, com 20 anos de idade, Edith Stein inicia os estudos universitários de germanística – língua alemã e literatura –, história, propedêutica filosófica e psicologia na universidade da Breslávia, sua cidade Natal. Envolve-se também com a política universitária, participando de diversos grupos de caráter reformista, entre eles o grupo pedagógico e a Associação Universitária Feminina. Apesar de demonstrar um grande amor à sua universidade, que ela chamava de alma mater (STEIN, 2018, p. 270), Edith Stein decepciona-se com a abordagem empírica que era utilizada no campo da psicologia e procura fundamentos mais sólidos para empreender a sua investigação sobre a natureza humana. Ouve falar de uma nova filosofia que estava surgindo, a de Edmund Husserl, lê as suas Investigações Lógicas (1901) e nela encontra os fundamentos que estava buscando.

Em 1913, com o apoio de sua mãe, muda-se para Gotinga para continuar lá os seus estudos universitários e seguir os seminários de Edmund Husserl. É prontamente aceita pelo mestre e convidada a participar do seleto grupo de pensadores vinculados a ele: o Círculo de fenomenólogos de Gotinga. Lá teve contato com vários convertidos, entre eles o próprio Husserl, judeu convertido ao protestantismo, e Max Scheler, convertido e apologista do catolicismo. Edith Stein, apesar de sempre ter participado com sua mãe e irmãos das grandes festas judaicas, em torno dos quinze anos de idade decide afastar-se da religião, de sua “fé infantil”, para viver como uma “pessoa independente”, recusando a autoridade de sua mãe e irmãos (STEIN, 2018, p. 164), preenchida pelo seu mundo interior e confiando apenas na verdade que conseguia compreender com seus estudos. A partir de 1913 o convívio de Edith Stein com esses fenomenólogos convertidos a conduz a uma aproximação mais respeitosa do fenômeno religioso. Ela escreve em sua autobiografia que não havia percebido essa primeira abertura no seu interior para Deus, pois ainda estava muito presa às suas “preconcepções racionalistas” dentro das quais tinha crescido (STEIN, 2018, p. 333). Mais tarde, por ocasião de sua própria conversão, ela reconhece que aquelas pessoas que ela admirava e pertenciam ao universo da fé, com quem ela convivia diariamente nos primeiros anos de Gotinga – Especialmente Edmund Husserl e Max Scheler –, a foram transformando: “contentava-me em acolher em mim sem resistência os estímulos que vinham das pessoas à minha volta e fui por elas progressivamente transformada – quase sem perceber” (STEIN, 2018, p. 333). Esse contato motivará Edith Stein, depois da defesa de sua tese doutoral, para o estudo da fenomenologia da religião e, após, da filosofia cristã, especialmente em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino.

Em 1914, Edith Stein conclui os seus estudos universitários em Gotinga e prepara seus exames de licenciatura. Nesse mesmo ano explode a
Primeira Guerra Mundial e a esperança dá lugar à insegurança e ao pessimismo. A Alemanha declara guerra à Rússia e à França. Em janeiro de 1915, Edith Stein passa o exame de Estado e recebe o título de “Mestre em história, filosofia e germanística”, obtendo a nota máxima. O passo seguinte é inscrever-se para o doutorado. Ela é aceita para fazer a sua tese doutoral sobre “O problema da empatia” sob a direção de Edmund Husserl.

Edith Stein filósofa: Assistente de Husserl, professora e tradutora

Em abril de 1915, Edith Stein, assim como outros colegas fenomenólogos, decide interromper a redação de sua tese doutoral e alistar-se como voluntária na Cruz Vermelha. Como mulher e cidadã ela não se permite levar uma vida normal enquanto o seu País estava em guerra. Dessa vez sua mãe se opôs, pela primeira vez, à decisão da filha menor, mas Edith Stein a enfrentou, decidida a dedicar um tempo de sua vida à pátria que ela tanto amava e aos jovens soldados envolvidos na guerra. Ela atua como assistente de enfermeira no hospital de doenças contagiosas de Mährisch-Weisskirchen de abril a setembro do mesmo ano. Apesar da grande satisfação no trato e cuidado dos pacientes, Edith Stein experimenta uma nova realidade, a morte. O cansaço e o esgotamento nervoso a fazem pedir para retornar a sua cidade natal.

Em fevereiro de 1916, Edith Stein é contratada como professora de latim, alemão, história e geografia na escola Viktoria, onde havia estudado quando jovem. Em agosto do mesmo ano defende sua tese e obtém o título de doutora em filosofia pela Universidade de Friburgo, para onde tinha ido Husserl. Logo em seguida ela é convidada por Husserl para ser sua assistente e aceita de bom grado, acreditando em um bom intercâmbio com o seu professor, o que colaboraria no desenvolvimento de suas próprias ideias. Edith Stein muda para Friburgo e é incumbida de organizar os manuscritos de Husserl sobre a constituição do ser humano. Por causa da genialidade e desorganização de seu mestre, sobra muito pouco tempo para a jovem assistente ocupar-se com as suas próprias ideias, inclusive com o estudo da experiência religiosa, que a estava motivando. Com muita determinação e coragem ela deixa voluntariamente de ser assistente de Husserl em fevereiro de 1918 para trabalhar em suas pesquisas e ir à busca de uma colocação como professora universitária. Em fevereiro de 1919, inicia a Assembleia de Weimar e em junho a Alemanha assina o tratado de paz em Versalhes, acabando com a guerra. A Alemanha é derrotada e precisa reerguer-se. Paralelamente aos estudos Edith Stein se dedica à atividade política em vistas a instauração da República de Weimar, uma democracia representativa semipresidencial, que durará até 1933.

Com o início da República de Weimar as mulheres adquirem novos direitos, entre outros o direito ao voto e à docência em universidades. Edith Stein se inscreve para tentar ascender a uma cátedra universitária em Gotinga, Friburgo e Kiel. Apesar de passar com excelentes notas em todos os exames, ela não tem sucesso, pois a mentalidade reinante na época ainda não aceita a presença de mulheres em uma cátedra. Sem desistir da carreira docente Edith Stein aprofunda seus estudos fenomenológicos, direcionados agora às questões sobre ética, política e o Estado, pois vislumbrava com esperança a possibilidade da Alemanha se reerguer e consolidar um governo democrático. Voltando à Breslávia, ela ministra aulas de introdução à filosofia e ao método fenomenológico para um grupo de mais de trinta pessoas em sua casa. Apesar de não ter tido o apoio que gostaria por parte de Husserl para ser tornar uma professora universitária, ela permanece fiel ao seu mestre e continua utilizando e difundindo o método fenomenológico. Ministra também um curso sobre as questões fundamentais de ética em uma escola de adultos na Breslávia.

Em sua casa materna, Edith Segue estudando, escrevendo e ensinando fenomenologia. Durante esse período que vai de 1920 a 1925, Edith Stein escreve e publica três importantes textos: Causalidade psíquica e Indivíduo e Comunidade, reunidos em um só tomo e publicados em 1922 pelos Arquivos de Edmund Husserl sob o título: Contribuições à fundamentação filosófica da psicologia e das ciências do espírito e Uma investigação sobre o Estado, publicado em 1925, em que analisa fenomenologicamente ao elementos que devem estar contidos na essência de todo e qualquer Estado. Trata-se de “uma investigação que interessava a seus tempos de estudante em Gotinga, (…) inserido no contexto dos estudos científicos da autora, bem como dos seus interesses políticos e das referências teóricas que recebia das ciências humanas” (STEIN, 2022, p. 13 – Apresentação).

Edith Stein enfrenta, entre 1920 e 1921, um período de grande crise interior. Em junho de 1921, em férias na casa de sua amiga, a bióloga e fenomenóloga Hedwig Conrad – Martius, Edith Stein lê O livro da Vida de Santa Teresa D’Ávila e decide batizar-se católica. Sua mãe não compreende a decisão da filha e não a aceita, mas Edith Stein havia tido um encontro pessoal com Jesus, o Deus vivo tão esperado pelo povo judeu. Em 1º de janeiro de 1922 ela é batizada na Igreja de São Martinho em Bergzabern com o nome Edith Teresa Hedwig Stein, em homenagem à Madre Teresa de Ávila e à sua grande amiga Hedwig Conrad-Martius que, apesar de protestante, foi a sua madrinha de batismo.

Em 1923, Edith Stein é convidada a dar aulas de literatura e de alemão no colégio das dominicanas de Santa Madalena, em Espira, onde ela também passa a residir. Paralelamente às suas aulas e à agradável convivência com suas alunas, Edith Stein continua os seus estudos de filosofia, publicando em 1924 o artigo O que é a fenomenologia. Ela também aproveita boa parte de seu tempo livre para conhecer mais profundamente autores da metafísica cristã: Agostinho, Dionísio o Areopagita, Duns Escoto e Tomás de Aquino, entre outros. Em 1925, traduz do inglês para o alemão o diário e as cartas do Cardeal Newman, um convertido do anglicanismo ao catolicismo, continua publicando artigos filosóficos, e mantém um permanente engajamento para a construção de uma sociedade que respeite a dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões. Nesse mesmo ano aparece o seu estudo Uma investigação sobre o Estado. Em 1928, ela traduz do latim para o alemão a primeira parte das Quaestiones disputate de veritate de Santo Tomás de Aquino. Começa a ser conhecida também como tomista e em setembro de 1932, Edith Stein será a única mulher filósofa a participar como conferencista do Congresso Internacional Tomista de Juvisy, próximo a Paris. Nesse mesmo período publica o segundo volume de tradução das Quaestiones disputate de veritate.

Em março de 1932, Edith Stein é contratada como professora do “Instituto de Pedagogia Científica” de Münster e terá a oportunidade de conceber e ministrar um curso de antropologia filosófica e teológica, a ser ministrado em dois semestres. O primeiro curso, dado no semestre de inverno de 1932-1933, será publicado postumamente sob o título (“A estrutura da pessoa humana” (STEIN, 2003, p. 553-749). O segundo curso, de antropologia teológica, não será ministrado, pois em primeiro de abril ela é obrigada a deixar o seu posto no instituto por causa da perseguição nazista aos judeus. Nas lições sobre a pessoa humana Edith Stein pôde integrar as suas pesquisas fenomenológicas sobre a essência da natureza humana com o seu grande interesse pela formação e prática educativa (RUS, E. de, 2015, p, 32). Além disso, para ela o formador não deve apenas adquirir um conhecimento do ser humano, mas deve estar capacitado a formar-se a si mesmo enquanto tal (SBERGA, 2014, p.204-212).

Conferencista: pedagoga, feminista católica e ativista política

Em 1926, quando ainda era professora na escola das dominicanas em Espira, Edith Stein inicia uma nova e inesperada carreira de conferencista ao ser convidada a dar palestras nessa cidade e em Kaiserlauten sobre o tema: “Verdade e clareza no ensinamento e na educação”. Em maio de 1927, ela entra para a “Associação de Professoras Católicas da Baviera”, dedicando-se ao estudo da formação dos pedagogos, especialmente das mulheres. Entre 1926 e 1933, Edith Stein dá uma longa série de palestras sobre a educação e a questão feminina em várias cidades da Alemanha e países vizinhos: Espira, Bendorf, Heidelberg, Nuremberg, Salzburg, entre outros. Ela já havia se tornado uma intelectual católica de renome, tanto pelo seu conhecimento aprofundado da fenomenologia de Husserl e da filosofia tomista quanto pelo seu engajamento na luta pela igualdade de condições de formação e dos direitos das mulheres.

Em março de 1931, após nove anos de docência em Espira, Edith Stein deixa suas aulas para se dedicar ao seu trabalho filosófico de pesquisa, às conferências, às traduções – especialmente de Tomás de Aquino – e à busca de um posto docente em uma universidade. Nas conferências dadas nesse período transparece de modo mais nítido a interligação entre os conceitos de Tomás de Aquino e a análise fenomenológica da pessoa humana e Edith Stein passa a falar de “alma feminina” e “alma masculina”.

Em 30 de outubro de 1931, Edith Stein discorre aos membros do “Grupo católico universitário de Aquisgrão” sobre “A vocação do homem e da mulher segundo a ordem da natureza e da graça”. A vocação é compreendida como “ter sido chamado”, de um modo perceptível, tendo em vista a própria “capacidade” e “qualificação”, o que é o mesmo que pensá-la como “ter sido chamado por Deus”. (PARISE, 2017, p.9-10). A vocação inerente a cada indivíduo, apesar de nascer com ele e estar contida em sua própria natureza, não é captada imediatamente por ele, tampouco pelos seus formadores, mas ela “amadurece e se torna perceptível ao longo da vida” (STEIN, 1999, p.74).

Nessa mesma palestra Edith Stein menciona: uma vocação geral a todo ser humano; uma vocação específica a cada gênero – masculino ou feminino; uma vocação individual e irredutível a cada pessoa (STEIN, 1999, p.74). Apesar da identificação desses três âmbitos vocacionais, o que temos na existência efetiva são apenas indivíduos concretos, “diante de nós em carne e osso” (ALFIERI, 2014, p. 31). Cada pessoa, para configurar-se de modo íntegro e integral, precisa conhecer-se nesses três âmbitos da própria existência, sem privilegiar um em detrimento dos outros: a forma geral da humanidade comum a todo e qualquer ser humano, a sua forma específica – “forma interna” ou “alma” preponderante masculina ou feminina – e a sua “marca pessoal”, ou ainda, o “modo” como realiza a forma geral e a específica em sua singularidade. Só assim cada ser humano é capaz de atualizar as possibilidades contidas em sua própria natureza e, consequentemente, participar do desenvolvimento da humanidade como um todo (ALES BELLO, 2000, p. 159-172).

Surge assim uma grande questão, que para ser respondida necessita do auxílio da fenomenologia e da metafísica cristã: Como captar o que existe de genérico e específico no ser humano sem desconsiderar a sua individualidade singular, única e irrepetível? Não é o intuito deste trabalho abordar a análise fenomenológica e metafísica da pessoa humana em suas species masculina e feminina, tema tratado em outro artigo (PARISE, 2017), e sim mostrar o uso que Edith Stein faz da literatura para explicitar a noção de “alma feminina” a um público leigo – não é formado em filosofia e fenomenologia. Por meio de personagens arquetípicas Edith Stein procura manifestar o sentido de tal conceito de modo diferente daquele apreendido por meio de explicações psicológicas e empíricas (ALES BELLO, 2004, p. 11-46).

No ciclo de palestras que Edith Stein ministra nos dias 18, 20, 25 e 27 de janeiro de 1932 para os membros da “Associação Feminina Católica” de Zurique, ela lança mão do recurso à literatura para introduzir o tema: “A vida cristã da mulher”. Ao fazer isso ela pretende mostrar que a vida cristã da mulher não está dissociada da sua natureza tal como é apreendida pela cultura em geral, bem pelo contrário: a visão cristã enaltece o que existe de essencial, tanto no homem quanto na mulher, de um modo que não é passível de ser compreendido apenas com o conhecimento das ciências naturais e humanas. Esse argumento é desenvolvido em outra conferência, já citada, “A vocação do homem e da mulher segundo a ordem da natureza e da graça”.

Nas quatro conferências de Zurique Edith Stein aborda o tema da formação feminina para ressaltar a importância de sua atuação na sociedade, que não se reduz apenas aos seus deveres para com a família e a sua casa, mas que podem e devem ser complementados por uma atuação profissional satisfatória. O seu argumento está baseada na compreensão de que a essência da natureza humana se dá tanto nos homens quanto nas mulheres, sendo ambos capazes de qualquer tipo de atuação profissional. No entanto, quando um homem e uma mulher se dedicam a algum tipo de tarefa, eles o fazem de modo diverso, cada qual segundo a sua especificidade, que não é empírica, mas essencial (PARISE, 2017, P. 14-15).

A alma feminina

Para falar desse “âmbito” essencial Edith Stein começa o seu argumento apresentando o que entende por “alma feminina” recorrendo a obras literárias (STEIN, 1999, p. 106-116). Não se pode, contudo, esquecer que o recurso à literatura não impede Edith Stein de argumentar como filósofa e fenomenóloga, fiel ao método de Husserl, mesmo quando não o cita de modo explícito. Nas suas conferências sobre a mulher Edith Stein faz pouquíssimas alusões ao método husserliano e às suas operações específicas, pois geralmente se dirige a um público leigo, que desconhece a fenomenologia, uma ciência muito recente e ainda pouco divulgada na época. Mas tal método estará sempre presente em todas as obras de Edith Stein, até o final de sua vida, inclusive na sua obra-prima, escrita no Carmelo, “Ser finito e ser eterno”. O não referirse explicitamente ao método de Husserl não a impede de proceder fenomenologicamente e, o que é mais notável, de propiciar ao público uma experiência de “fazer fenomenologia”. Por isso é possível identificar as etapas essenciais do método fenomenológico em todas as suas conferências. Edith Stein não separa em sua vida os diferentes campos de conhecimento investigados por ela para chegar à sua compreensão da pessoa humana, pois eles estão todos interligados entre si e são inseparáveis da sua própria vida.

A proposta desse novo método, a fenomenologia, inicia pela observação do “fenômeno”, isto é, da coisa mesma tal como ela aparece, tal como se manifesta para uma consciência em geral. No caso dessa palestra, o fenômeno que Edith Stein se propõe a analisar é a mulher, não em suas particularidades e sim na sua essência. Como para o fenomenólogo “não interessa tanto o fato das coisas se mostrarem a nós, mas, sim, compreender o que são, isto é, o seu sentido” (ALES BELLO, 2006, p. 18-19), Edith Stein investiga o sentido da feminilidade em geral, que ela definirá como a “alma feminina”.

A observação da essência a ser captada em toda mulher deve iniciar pela atitude da epoché: um esforço para olhar a coisa nela mesma, sem pressupostos, se distanciando da atitude de orientação natural que percebe as coisas “para nós aí”, “a nosso dispor” (Husserl, 2006, p. 81). Epoché significa “suspensão do juízo” ou “colocação fora do circuito” das particularidades da coisa que se mostra, assim como das teorias que procuram descrevê-la. Na análise da essência feminina é preciso colocar entre parênteses as mulheres tal como elas se apresentam em suas características particulares, assim como todas as teorias que as analisam de um modo exterior: a biologia, a psicologia, a sociologia, entre outras. A filosofia não se interessa pelas características que as diferentes mulheres possuem de fato, mas por suas essências, pelas “qualidades que lhes correspondem necessariamente, sem as quais não poderiam existir” (STEIN, 2005, p. 674).

Edith Stein introduz a sua primeira palestra indicando o “fenômeno” pelo qual ela começará a sua análise: a mulher, sua “índole ou vocação”, tal como sua manifestação é apreendida pelo senso comum na vida real. Ela convida os ouvintes a tomar distância de teorias e opiniões pré-concebidas para serem capazes de indagar sobre a sua essência: o que a mulher é nela mesma, em seu sentido mais próprio.

Há pouco tempo, uma moça inteligente me perguntou por que atualmente se fala tanto da índole e da vocação da mulher. É realmente impressionante como esse tema é constantemente abordado de todos os lados e tratado das mais diversas maneiras. Importantes homens de espírito projetam um ideal luminoso do ser feminino, esperando que sua realização traga a cura para todos os males e perigos de nosso tempo. Por outro lado, encontramos na literatura de hoje e das últimas décadas, repetidamente, a mulher como demônio do abismo. Ambos os lados nos põem um grande peso nos ombros. Nossa razão de ser e nossa vida nos são impingidas como um problema. Não conseguimos escapar da pergunta: o que somos e o que devemos ser? E não é apenas o intelecto reflexivo que nos põe diante dessa questão. A própria vida transformou a nossa vida em problema.

(STEIN, 1999, p. 105).

Por meio da atitude da epoché, Edith Stein evidencia em sua análise da essência da mulher o âmbito existencial e ético. Como estava falando para um público feminino, ela enfatiza que esse âmbito deve ser abordado “em primeira pessoa”, ou seja, para se apreender a essência da feminilidade precisamos questionar “o que somos e o que devemos ser” (STEIN, 1999, p. 105). No ser humano a questão ética, do “dever-ser”, está estritamente vinculada à pergunta pelo “ser”, pela sua essência, pois ele não é “um ser pronto e, sim, um vir-a-ser” (STEIN, 1999, p. 106). Nesse processo de “vir-a-ser” o sujeito vai se formando enquanto se conhece e se reconhece como pessoa humana, um ser espiritual e livre, capaz de formar-se e configurar-se.

Edith Stein justifica a importância do tema da formação na atualidade e no mundo prático pelo fato das mulheres terem sido arrancadas “do âmbito protegido da casa e de formas de vida perfeitamente assimiladas, colocando-as nas mais diversas situações desconhecidas e diante de problemas práticos insuspeitados” (STEIN, 1999, p. 105-106). É preciso pensar como enfrentar esse problema por meio da formação. Para Edith Stein a formação da pessoa humana é em parte feita por ela própria, ao acolher ou rejeitar o que lhe é proposto “de fora”, do mundo em que vive – constituindo e desvelando a sua escala de valores pessoal – e em parte pela influência das pessoas que se relacionam com ele, especialmente os educadores – não só os professores, mas também os pais e outras pessoas que participam informalmente do processo de educação. Apesar de livre, o ser humano não deixa de sofrer influências, tanto da sua determinação natural – biológica, fisiológica, genética etc. –, quanto do mundo em que vive – o povo a que pertence, a sua cultura, arte, língua, história etc. Além disso, a influência dos educadores é muito grande, pois a “imagem” ou “figura” humana que eles comunicam concomitantemente ao processo pedagógico influencia, dentro dos limites das determinações individuais concretas, o processo de autoconhecimento e de autoformação (SBERGA, 2014, 212-228).

Por fim, para se refletir sobre a formação da mulher é preciso introduzir mais um âmbito em sua análise: o âmbito metafísico, eterno, transcendente. Edith Stein havia experimentado em sua própria vida que só se consegue captar de modo profundo o que realmente é o ser humano em sua essência quando se aceita colocá-lo “sob a luz da eternidade”.

O que somos e em que nos tornamos não permanece encerrado dentro de si mesmo, antes precisa propagar-se e ter consequências; mas, todo o nosso ser e vir-a-ser e atuar no tempo é disposto desde a eternidade e tem um sentido para a eternidade e só se torna claro para nós na medida em que nos colocamos sob a luz da eternidade
(STEIN, 1999, p. 106).

O método fenomenológico adquire um novo dinamismo quando Edith Stein amplia e aprofunda a concepção da pessoa humana à luz da revelação cristã (PARISE, 2017, p. 6). Em seu curso de 1932-1933 sobre a pessoa humana no Instituto de Pedagogia Científica ela afirma que a investigação da essência da natureza humana não pode permanecer apenas nos limites do ser criado e finito, mas é preciso “levar em consideração a diferenças entre o ser criado e aquele incriado e qual a relação que existe entre eles” (STEIN, 2003, p. 587-588). A abordagem antropológico-filosófica solicita, por uma necessidade interna da própria investigação fenomenológica, ser complementada por uma abordagem antropológicoteológica que não se confunde com uma teologia (KUSANO, 2014, p. 101).

Dispostos alguns elementos metodológicos, sub-repticiamente, nos três parágrafos introdutórios de sua conferência, Edith Stein apresenta o objeto a ser analisado: a “alma feminina”. Mas como falar desse objeto de um modo genérico? Sabemos que não existe uma “coisa” que podemos identificar como sendo a “alma feminina”, mas existe apenas uma enorme variedade de mulheres, distintas umas das outras. Partindo dessa imensa variedade, o máximo que se poderia fazer é identificar alguns “tipos gerais” de mulher e descrevê-los, tal como faz a psicologia. Mas isso não é suficiente. É preciso buscar por meio desses tipos um “denominador comum”, um “arquétipo”, a ponto de sermos capazes de diferenciá-lo de outro, que captamos como sendo a “alma masculina”. Para Edith Stein a literatura, mais do que a análise psicológica, revela esse denominador comum, especialmente nas obras que apresentam uma “interpretação e descrição da alma”, manifestando “um valor simbólico especial” (STEIN, 1999, p. 107).

A investigação da alma feminina pelo recurso à literatura

A literatura a que se refere Edith Stein não é qualquer literatura. Ela escolhe autores que são reconhecidos pela capacidade de apresentar o íntimo da alma humana. Edith Stein, formada no estudo da literatura de língua alemã, escolhe a análise da alma apresentada nas obras de Goethe, Henrik Ibsen e Sigrid Undset por considerar profunda e abrangente, desenvolvendo-se no âmbito das essências, dos arquétipos. É diversa da análise feita pela psicologia, que propõe uma descrição empírica e externa dos diferentes “tipos humanos” sem levar em consideração a sua vida íntima: o seu “ser” e o seu “dever-ser”.

A literatura, além de considerar a dimensão interna do ser humano, apresenta uma determinada visão de humanidade, manifestando de modo simbólico o que é essencial e específico a ele. Desse modo as obras literárias podem auxiliar a investigação fenomenológica sobre o ser humano de um modo bem mais apropriado do que a psicologia, além de serem capazes de desvelar o indivíduo a ele mesmo, permitindo que penetre em camadas mais profundas do seu próprio “Eu” por meio do reconhecimento dos valores vivenciados pelos personagens do texto.

O objetivo de Edith Stein nesse ciclo de conferências aparece agora de modo mais claro: pressupondo o método fenomenológico, chegar o mais próximo possível do que seria a essência da mulher, a alma feminina¸ contrapondo-a a alma masculina, por meio da análise das personagens principais de três romances. Ela escolhe três obras diversas entre si, cuja narrativa se dá em épocas bem distintas: a obra Olav Audunssön, de Sigrid Undset, a peça teatral Nora oder ein Puppenheim – A casa das bonecas de Henrik Ibsen e da peça dramática de Johann W. Goethe, Ifigênia.

Ingunn, a personagem feminina da obra de Sigrid Undset, e Olav, ser irmão de criação, vivem no campo, na Noruega da Idade Média; os personagens Nora e Robert de Henrik Ibsen também vivem na Noruega, mas em uma cidade moderna, provavelmente no final do século XIX; Ifigênia, a personagem feminina de Goethe, é contraposta a algumas figuras masculinas, especialmente a do seu irmão e a do rei que a mantém prisioneira. Essa obra é baseada na peça grega Ifigênia em Táuris, provavelmente de Eurípedes (480 – 406 a.C.), e se passa na Grécia antiga.

A primeira obra apresenta a figura feminina por meio de Ingunn, uma menina que cresce em uma pequena propriedade rural. Ela é retratada pelo autor como uma “filha da natureza”, pois recebe pouca educação e pouco cuidado por parte dos pais. Desde criança é prometida em casamento ao seu irmão de criação, Olav. As duas crianças são criadas soltas, vagando pelos campos e brincando com seus colegas, amparando-se umas às outras. Com 15 ou 16 anos o desejo desperta entre Ingunn e Olav e eles cedem à tentação. A partir disso o apetite sexual de Ingunn se torna voraz e insaciável. Os dois jovens, se considerando unidos indissoluvelmente, pedem aos pais que o enlace seja efetivado pelo direito eclesiástico, mas este lhes é negado. Olav é mandado para lutar em países longínquos e eles não se veem por muitos anos. Ingunn procura em vão a felicidade nos sonhos e é seguidamente afligida por crises de histeria. Acaba tornando-se vítima de um sedutor e concebe um filho. Nesse momento “irrompe em sua existência sombria qual luz de outro mundo o reconhecimento de sua queda e, com força admirável, ela reage e põe fim à relação pecaminosa” (STEIN, 1999, p. 108). Olav retorna ao lar, ouve de Ingunn a confissão de sua culpa e aceita não romper o vínculo sagrado que tinha prometido: leva Ingunn para morar em seu sítio e cria o filho como seu próprio herdeiro. Mas eles não são felizes, pois Ingunn vive tão abatida pela consciência de sua falta que todos os seus filhos com Olav nascem mortos. Quanto mais culpada se sente, mais ela pede provas de amor a Olav, que acaba cedendo. Apesar disso, ela nunca se sente satisfeita. Ambas as vidas vão definhando e se consumindo, mas quando Ingunn se encontra próxima do fim,

(…) o marido começa a suspeitar que nessa alma deve ter germinado algo mais do que afeição surda e irracional, que deve ter havido uma centelha divina subnutrida e a compreensão de um mundo superior, mas sem a necessária claridade, e que, por isso, não tivera a força necessária para dar forma à sua vida (STEIN, 1999, p. 108).

A vida de ambos acaba destruída, pois vivem o matrimônio como um tipo de fusão de corpos e de almas, onde nenhum deles desenvolve a própria autonomia. Edith Stein conclui, olhando sob a luz da eternidade, que o romance retrata um confronto de dois “pré-mundos: o instinto surdo do caos primitivo e o espírito de Deus sobre os seres” (STEIN, 1999, p. 108), pois especialmente na figura de Ingunn percebe-se que a sua alma, apesar de ter permanecido em um estado infantil e natural, deve ter abrigado sementes espirituais germináveis. Mas a vida não forneceu a força suficiente para que elas viessem à tona em uma terra tão pouco preparada.

Nora, de Ibsen, expressa um tipo feminino oposto ao de Ingunn. Ao invés de filha da natureza, ela é produto do ambiente urbano cultural em que é criada. Nora é comparada com a boneca que ela gostava de brincar quando criança, pois “tendo sido a boneca preferida de seu pai, é agora a boneca preferida de seu marido, assim como os filhos são suas bonecas” (STEIN, 1999, p. 109). Seu intelecto é vivo, mas não teve uma formação sistemática, assim como também a sua vontade. Seu marido, Robert Helmer, um advogado honesto, cai doente, e ela se dá conta que eles não têm recursos para pagar a viagem que poderia lhe devolver a saúde. Como não pode contar com o próprio pai, pois este também se encontra enfermo, Nora decide fazer um empréstimo para custear a viagem do marido. Ela falsifica a assinatura, sem o consentimento dele e sem comunicar o marido, pois sabe que ele certamente não aprovaria. Quando o credor não recebe o dinheiro e ameaça contar a verdade ao marido, Nora pensa em suicídio. Mas, ao mesmo tempo ela acredita que o amor de Robert por ela o levará a desculpá-la e decide contar toda a verdade. O que acontece é o oposto do esperado: o marido a condena moralmente e diz que ela já não merece mais ser a educadora dos filhos. Nora e Robert percebem o vazio da relação de ambos, que não pode propriamente ser chamada de casamento. Quando o risco de um escândalo social é afastado, Robert decide perdoar a esposa e restabelecer a vida marital comum, mas Nora sente que já não pode mais voltar atrás. Ela percebe “que precisa tornar-se outra pessoa antes de tentar outra vez ser esposa e mãe” (STEIN, 1999, p. 109). Por causa da tomada de consciência da mulher, Robert também chega a uma conclusão semelhante: “precisa transformar-se em ser humano, deixando de ser apenas uma figura social, para que sua convivência pudesse transformar-se em casamento” (STEIN, 1999, p. 109).

A Ifigênia de Goethe, última obra citada por Edith Stein, vive na Grécia Antiga. Ainda muito jovem é ameaçada de morte, mas é salva pela mão dos deuses e tirada do convívio de seus pais e irmãos. Ela é destinada ao serviço sagrado do templo em Táuris, onde é muito bem tratada como sacerdotisa e venerada como uma santa. Apesar disso, Ifigênia mantém o amor à sua família e sonha retornar ao convívio de seus parentes. O rei de Táuris a pede em casamento, mas ela recusa, sabendo que desse modo será muito mais difícil retornar à pátria. Como castigo o rei ordena que dois estrangeiros devam ser sacrificados à deusa, “cumprindo assim um antigo costume local que tinha sido revogado justamente por sua iniciativa” (STEIN, 1999, p. 110). Os estrangeiros que aparecem na praia são o seu irmão e um amigo dele. Ifigênia fica feliz por rever alguém de sua família, mas encontra o seu irmão tomado de arrependimento, à beira da loucura por causa da morte causada à própria mãe. Ifigênia é posta diante do dilema de salvar o seu irmão, o amigo dele e a si mesma por meio da mentira e trapaça, ou cumprir uma antiga maldição de sua família. A princípio ela decide pelo mal menor, mas a sua alma pura “não suporta a falsidade e o abuso de confiança, lutando contra eles como um corpo sadio se opõe aos germes de uma doença” (STEIN, 1999, p. 110). Confiando na veracidade dos deuses Ifigênia acaba contando todo o plano ao rei, que a perdoa e como recompensa permite que ela e o irmão retornem à pátria. O irmão já está curado por meio de sua oração e é perdoado pelo seu crime ao trazer Ifigênia de volta ao lar.

Após o relato sucinto dessas três obras, Edith Stein justifica o uso de personagens da literatura, expondo o realismo das três figuras apresentadas para, em seguida, perscrutar o que há de comum entre elas. Para se compreender o aspecto real e não simplesmente metafórico das personagens é preciso olhar para os seus autores. Para Edith Stein, quanto à autora Sigrid Undset, é visível a sua capacidade de observar a vida com sinceridade e objetividade, até mesmo “uma verdadeira compulsão de expressar o que a realidade brutal lhe impõe” (STEIN, 1999, p. 111). A unilateralidade com que apresenta os personagens, principalmente a Ingunn, é utilizada para destacar “o elemento animalesco e instintivo em oposição a um idealismo exagerado que gostaria de elevar-se acima da realidade terrena” (STEIN, 1999, p. 111). Esse idealismo exagerado pode ser visto como fio condutor do segundo romance, de Henrik Ibsen: o autor não se satisfaz apenas em descrever o ser humano influenciado pelo meio em que vive, mas aprofunda o seu valor ético e moral, mostrando que esse lhe permite deixar de ser escravo das influências socioculturais. Edith Stein explicita que Henrik Ibsen é um feminista e se pretende defensor das causas da mulher, e por isso a sua heroína foi escolhida com base em seu valor. Nora é retratada de modo rigoroso, e mesmo que a sua atitude no final não seja a atitude comum das mulheres daquele tempo – geralmente submissas ao pai e ao marido –, ela não é inverossímil. A força e a consequência dos atos e pensamentos de Nora depois que ela desperta do seu sonho podem surpreender, mas, segundo Edith Stein, não é algo impossível de ser concebido. Por fim, a trama clássica de Goethe apresenta uma figura feminina idealizada, mas ela não pode ser confundida com a construção de uma fantasia: “é uma imagem ideal baseada, experimentada e sentida na vida” (STEIN, 1999, p. 111). Goethe é o grande “plasmador” das formas plásticas da “humanidade pura”, apresentando assim na figura de Ifigênia “o eterno feminino”, sem nenhuma intenção tendenciosa, visto que todo aquele que lê a sua obra se sente comovido de tal maneira que só é possível quando se está diante do “totalmente genuíno e eternamente verdadeiro” (STEIN, 1999, p. 111).

Conclusão: a função eterna da mulher contraposta a do homem

Apesar das diferentes concepções de ser humano que estão por trás desses personagens – como produto da natureza ou do meio social, ou podendo elevarse acima de toda determinação natural e cultural em busca de um ideal ético –, Edith Stein identifica algo comum às três figuras femininas retratadas, que permite que se fale em termos gerais de um “tipo mulher”:

“Podemos, então, destacar algo comum nessas três figuras que cresceram em solos tão diversos (tanto com relação ao ambiente em que a criação literária as coloca quanto à época cultural e à personalidade de seus criadores)? (…) Em todas, encontro uma índole comum: o desejo de dar e de receber amor, e com isso, a aspiração de serem tiradas da estreiteza de sua existência real atual para serem guindadas a um ser e agir mais elevado”
(STEIN, 1999, p. 111).

Ingunn sonha viver ao lado de Olav e ter muitos filhos, mas não consegue dar forma com seus atos ao seu próprio sonho por causa das limitações da sua natureza e da sua falta de formação. Quando consegue realizar o sonho de uma vida em união com o seu marido, ela a reduz à intimidade corporal e ao afeto; não encontra neles a felicidade desejada e não conhece outro caminho para realizá-la. Nora não tem inicialmente consciência de sua existência verdadeira, oculta atrás de sua vida de boneca. Quando seu marido adoece, aparece a oportunidade de sair de sua vida ordinária e descobrir, pela irrupção de um grande amor, o verdadeiro ser em seu marido e nela própria. Como ela não é correspondida por ele, infere que por trás da máscara social não há mais nada e decide buscar o seu ser verdadeiro si mesma. Ifigênia já não precisa buscar o ser verdadeiro, pois ela já está nele. Falta-lhe apenas comprová-la e criar o espaço necessário para atuar em sua própria vida de modo adequado, transformando o ser que nela amadureceu em ato de amor salvador, cumprindo assim o seu destino.

Nesses três tipos, ou melhor, arquétipos, femininos, Edith Stein diz encontrar no fundo uma mesma aspiração, mesmo que desenvolvida em contextos diversos. Esse desejo essencialmente feminino corresponde à “função eterna da mulher”:

Tornar-se aquilo que se deve ser, deixar amadurecer para o desdobramento mais perfeito possível a humanidade que está latente nela, da forma individual especial que foi colocada nela. Deixar amadurecê-la na união amorosa que, fecundando, provoca esse processo de amadurecimento e, ao mesmo tempo, estimula e promove também nos outros o amadurecimento de sua perfeição, essa é a aspiração mais profunda do desejar feminino, que pode manifestar-se nos mais diversos disfarces e mesmo distorções e desfiguramentos
(STEIN, 1999, p. 112).

Para manifestar de modo mais claro o que entende por essa função eterna da mulher, Edith Stein apresenta como esse mesmo desejo se realiza no modo de ser masculino. Contrapondo esses dois modos de realização, encontramos na alma masculina e na alma feminina um “desejo especifico” que não poder ser visto como um desejo comum a todo gênero humano. À função eterna da mulher corresponde uma função eterna do homem, distinta da dela:

A aspiração do homem se dirige mais aos efeitos externos, à ação e ao desempenho objetivo do que ao ser pessoal, dele próprio e dos outros. Claro que não se pode separar completamente as duas coisas. A alma humana como tal não é um ser pronto, parado. Seu ser é vir-a-ser em que as forças que ela traz ao mundo em sua forma germinal devem desenvolver-se pela atividade (STEIN, 1999, p. 113).

Indiscutivelmente, apesar de diferentes modos de ser, homens e mulheres possuem uma mesma “estrutura básica”: uma alma inserida em um corpo próprio vivente (Leib), onde ambos se entrelaçam e se influenciam mutuamente. A força e a saúde da alma humana estão relacionadas intimamente com a força e saúde do corpo; a vida anímica, por sua vez, gera no corpo, vida, movimento, forma, configuração e sentido espiritual. Nesse entrelaçamento de alma e corpo, sobre a base da sensualidade, tanto corporal quanto psíquica, repousa um ser espiritual.

As três atividades espirituais encontradas em todo ser humano, quer seja homem ou mulher são: a razão, que explora com o seu conhecimento o mundo; a vontade, que interfere de modo criativo e formador no mundo; o sentido afetivo ou o “coração” (Gemüt), que “recebe internamente esse mundo e com ele se confronta” (STEIN, 1999, p. 14). Pelo sentido afetivo o ser humano se abre ao mundo dos valores e é capaz de ingressar no cerne mais íntimo de sua pessoa (RUS, 2015, p. 56).

Apesar dessa forma geral, a medida e a proporção dessas forças variam de indivíduo para indivíduo, além de provocar uma diferença específica entre homem e mulher.

Parece-me que a alma da mulher está mais presente em todas as partes do corpo de modo que se sente mais atingida em seu íntimo por tudo o que lhe acontece, enquanto para o homem o corpo assume mais o caráter de instrumento que está a seu serviço, o que provoca um certo distanciamento
(STEIN, 1999, p. 114).

Por sua característica própria a alma feminina é mais adapta à missão de formação de outros seres humanos, mas isso não significa que os homens não possam ser bons formadores. Cabe aos educadores comunicar esse modo de ser específico, aplicando-os também na formação do seu próprio ser pessoal, para que tanto o homem quanto a mulher trabalhem no desdobramento perfeito de sua personalidade, acionando suas forças específicas e complementando-as com aquelas que não estão diretamente vinculadas a sua essência específica. Desse modo, homens e mulheres podem crescer e se configurar mais plenamente auxiliando-se mutuamente, sem abandonar as suas diferenças, mas enriquecendo a própria visão de mundo com o compartilhamento de visões diversas da sua.

Referências

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HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: Introdução geral à fenomenologia pura. Trad. Márcio Suzuki. Aparecida: Ideias & Letras, 2006.
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Revista Ângulo 163 – Jul./Dez. 2021 – págs. 101 – 119

Autor

  • Maria Cecília Isatto Parise

    Maria Cecilia Isatto Parise possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestrado em História da Filosofia pela Université Paris 1 Pantheon-Sorbonne e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo na linha de pesquisa "Metafísica, Ciência e Linguagem". É professora palestrante e membro do Conselho consultivo da Oficina Municipal - Escola de Cidadania e Gestão Pública de SP. Professora convidada pelo departamento de pós-graduação em Teologia da PUCSP, onde ministra disciplinas no curso de extensão em teologia e ensino religioso. É cofundadora e cogestora do site edithstein.com.br. – Estudos Integradores da Pessoa Humana. Fundadora e diretora da Chouette Cursos e Educação. Membro do Centro Italiano di Ricerche Fenomenologiche de Roma.
    Membro, no Brasil, dos Grupos de Pesquisa: GT Edith Stein e o Círculo de Gotinga. O pensamento de Edith Stein da Universidade federal de São Paulo; Grupo de Estudos de Filosofia Fenomenológica de Edith Stein, da Universidade Federal do Ceará. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em ética e idealismo alemão - especialmente em Georg Friedrich Hegel, e no pensamento contemporâneo - especialmente na fenomenologia de Edmund Husserl e Edith Stein. Atua principalmente nas seguintes áreas: fenomenologia, antropologia filosófica, fé e razão. Investiga os temas: liberdade, subjetividade e intersubjetividade, relação da pessoa humana com Deus, identidade e gênero. É coautora do livro Masculino e Feminino na Fenomenologia de Edith Stein publicado em 2020, além da participação na produção de outros livros e da publicação de artigos acadêmicos na área da Filosofia. Atua também como tradutora para o português de textos e conferências dos fenomenólogos: Profa. Dra. Angela Ales Bello e o Prof. Dr. Éric de Rus.

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